O ourives e o moleiro.
Luiz Heron da Silva
Ouro e Barro (2007) é o mais recente disco do compositor gaúcho Raul Ellwanger. Como o ourives e o oleiro, ambos artesãos, Raul desenha neste CD, com rigor e carinho, sonoridades que aos poucos vão seduzindo os mais exigentes ouvidos. E o faz não tão somente como compositor – o que já não seria pouco –, mas também e ao mesmo tempo como intérprete e – talvez a melhor novidade do disco – como arranjador de todas as faixas.
Ouro e Barro pode ser ouvido como um amplo inventário de ritmos e gêneros da música popular. Como se Raul aqui buscasse render homenagem ao cancioneiro tradicional – brasileiro, latino-americano ou d´além mar. Marcha-rancho e bossa-nova, jazz e samba de quintal, choro e forró, fado e samba-canção – em todos esses ritmos banham-se os acordes e as melodias do disco.
Essa diversidade ganha unidade através do naipe de sopros que acompanha as faixas, contempladas por solos instrumentais que criam um clima jazzístico. Instrumentistas especialmente convidados animam suas cordas, couros e sopros em magistrais torneios melódicos e rítmicos.
Ouvidos mais atentos e acostumados ao prazer das harmonias hão de se alegrar com as soluções aqui apresentadas. Melodias e letras de Ouro e Barro encontram poderosas aliadas nas seqüências harmônicas. Nisto, Raul não economiza: com suas soluções harmônicas – sutis às vezes, delicadas ou agressivas noutras, mas sempre necessárias – o compositor cria a atmosfera para melhor nos envolver no drama e no afeto, na alegria e no humor, na revolta e na melancolia – esses sentimentos que as canções exercitam em nós.
Confirma-se neste disco outro talento do compositor já demonstrado nas obras anteriores: o trabalho poético. Os poetas, mais que os filósofos, melhor nos ensinam que a arte é longa e a vida é breve. Nas letras de Ouro e Barro, com imagens da melhor poesia, Raul nos convida também a pensar sobre o que ganhamos e o que perdemos da beleza que a vida nos prometia. Mas só dizer assim parece pouco, pois Raul consegue mais – ou outra coisa - na medida em que não quer fazer poesia, mas canção.
E o faz então como nossos melhores compositores: as palavras escapam do dicionário ou do falar cotidiano não para a frase ou para o verso, mas para a melodia, para a harmonia, para o canto. Diálogos de palavras e sílabas com acordes ou tempos, desconstruções melódicas de palavras que criam subitamente sentidos inesperados – e mais para o fundo... O disco é bem servido desses e outros achados e citá-los aqui pode mais atrapalhar do que mostrar. Melhor convidar o ouvinte a surpreender-se com tais ourivesarias sonoras que a fusãs de letra e música nos oferta.
Me diga aí se não exagero ao ouvir, semeadas diligentemente em Ouro e Barro, tantas dessas pequenas maravilhas sonoras que nos acendem os ouvidos para o grande prazer da música.
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