Musicalidade gaúcha e universal
Sérgio Saraiva

O autor de uma das 10 "mais" da música gaúcha do Século 20, por votação popular, "Pealo de Sangue", Raul Ellwanger volta a ativa em 2004 para divulgar seu CD "Boa-Maré", lançado no primeiro semestre de 2004. Várias surpresas aguardam a quem ouvir o CD.

O compositor voltou faz pouco ao cenário da música popular brasileira "feita no sul". Antes passou sete "sabáticos" anos recolhido a seu pedaço de paraíso, na Praia do Rosa, Santa Catarina, onde repartiu seus sonhos com o cultivo de bromélias e orquídeas e de seu violão nas cabanas da pousada Estação Baleia.

Mas esta foi uma trégua para quem sempre lutou muito. Em 2001 ele participou da regravação de "Paralelo 30", um dos marcos coletivos da música moderna gaúcha, de 1978, desta vez gravado em CD com a orquestra da Unisinos, o que resultou no Prêmio Açorianos de 2001. Em 2002, retomando o gosto, Ellwanger reeditou em CD o LP "Gaudério", de 1984, e foi consagrado com o Prêmio Açorianos 2002. Eis ali o clássico "Pealo de Sangue", gravado com Mercedes Sosa.

CIDADÃO DO MUNDO

A história de Raul Ellwanger só pode ser contada a partir do "presente" ou "bônus" que constitui a 16° faixa de "Boa-Maré". É, nada mais nada menos, do que a gravação original remasterizada de "O Gaúcho", música finalista do festival da TV Excelsior de 1968, no Rio de Janeiro, quando o compositor tinha 19 anos.

Neste samba, em plena ditadura militar, o compositor elogia o mítico "gaudério", homem livre e sem amarras que vivia de lidas na campanha do Rio Grande do Sul, uma figura libertária universal. "Vou pelos campos da minha terra/sem patrão e sem espera/laçador de boa mão..."

Seu exílio tem causa na sua militância política de esquerda, mas basta ouvir parte da letra para saber o peso de seu engajamento musical na sentença que o condenou pela Lei de Segurança Nacional após o AI-5, editado no final daquele ano: "Pelo amigo dou um braço, pra mulher um doce abraço, pros milicos trago estrago, pro inimigo outro balaço..."

Ellwanger foi para o Chile após o AI-5, onde viveu a utopia do governo Allende até o golpe do general Pinochet e, a partir de 1973, transitou entre Montevidéu e Buenos Aires, retornando ao Brasil apenas ao final de 1977, quando prescreveu sua "pena". Isso o tirou do grande "boom" da MPB dos anos 70. Mas deu-lhe outra vivência rica.

PELA AMÉRICA DO SUL

"Boa-Maré" foi gravado em 2003, demarcando e comemorando os 35 anos de vida musical do compositor, poeta, arranjador, músico e cantor, com apoio do Fumproarte, instituição de fomento às artes da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. O disco demarca as conquistas.

Se os anos de afastamento do Brasil efetivaram uma perda irreparável, foram pelo menos sete anos de convivência com outra riquíssima vertente da música popular da América do Sul, criada nos Andes e nos pampas cisplatinos.

Nestes anos de trabalho, Raul Ellwanger criou uma obra ampla e variada, não "regionalista", que em sua medida reflete diversas quadras de sua vida dentro da cambiante situação brasileira e latino-americana.

Parte desta trajetória é registrada agora em CD pela primeira vez. "São canções do exílio, de amor à terra, onde quer que eu tenha andado: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Chile, Argentina, Uruguai", diz o compositor.

"Cumpro uma missão comigo mesmo. Registro letras soltas e parcerias perdidas com gente de todo o lado. Um painel... É um resgate de obras que nunca foram registradas em CD nestes 35 anos. Experimento 11 arranjos e, mais importante, atuo no violão na maioria", orgulha-se Ellwanger.

Nada mau para quem, no exílio ou aqui, atuou como assistente de departamento de pessoal, recenseador, professor de música, tradutor, militante profissional, compositor, letrista, músico, arranjador, intérprete, jinglista, tendo exercitado no Brasil atividades como pousadeiro, advogado estagiário, estudante de direito, de sociologia (três vezes) e de música, jogador de futebol e tenista, articulista em jornais e revistas brasileiras, argentinas e uruguaias, além de disciplinado cultivador de bromélias e orquídeas em seu paraíso na Praia do Rosa.

"Boa-Maré" reúne 20 temas de várias fases do autor que ainda não haviam sido registradas em CD. Gravado em 2003, o disco teve arranjos de diversos músicos e participações especiais (ver Boa-Maré).

RELATOS DO ARTISTA

Lá no comecinho

O primeiro espetáculo em que toco composições próprias, com alguns colegas da Universidade, se dá no auditório da PUC de Porto Alegre em 1966, época de intensa participação política e criatividade musical no país.

São canções de protesto, inspiradas em Sérgio Ricardo (um craque), Milton Nascimento, Geraldo Vandré e Gilberto Gil. Nos Festivais da Faculdade de Arquitetura e da TV Gaúcha de 1968 estou mais preparado como compositor, graças ao convívio com o grupo Canta Povo, Carlinhos Hartlieb, Cezar Dorfman, Paulinho do Pinho, João Alberto Soares, Wanderley Falkenberg.

Tenho canções finalistas registradas nos discos da Arquitetura e de "O Brasil Canta no Rio" (quando chegamos à final no Maracanãzinho).

"O gaúcho"e "Rosinha" são dessa época, em que a literatura de João Simões Lopes Neto passava a ser uma descoberta maravilhosa. Procuram criar MPB com personalidade local (coisa escassa até então), renovando os ritmos regionais e poetando as coisas da nossa cidade e da nossa região, sem complexos, sem copiar imposições da mídia. Incluimos em "Boa-maré" o fonograma original de 1968, gravado no Rio de Janeiro durante o festival da TV Excelsior."

Mala cheia de novidades!

"Assim como outras canções já gravadas, as inéditas "Santiago", "Quarenta beijos", e "Bicho-voador" foram feitas no retorno do exílio. Trazia a mala cheia de coisas diferentes: no primeiro disco (1979) gravei chacarera, chamamé, tango, bolero, usei o idioma castelhano, o bombo legüero e o bandoneón folclórico, musiquei Ferreira Gullar, Pablo Neruda, Carlos Nejar e Nei Duclós.

As duas primeiras canções falam do amor familiar, do nascimento de meu filho Santiago, e tem um giro harmônico complexo para levar a melodia estranhamente simples, com destaque para a interpretação de Maria Helena Anversa. "Bicho-voador" é a redescoberta do litoral de Santa Catarina, com suas lindezas em contraste com as manchetes enganosas do noticiário da tevê. A meditativa "Santiago" foi feita para meu filho, na mesma fornada de "Pealo de Sangue", minha canção mais conhecida ("...velho Rio Grande, velho Guaíba...").

Balaio de flores

Sempre quis registrar uma parceria com Sergio Metz, pois ele foi conversar noutros botecos e nos deixou mais solitários. Agora deu certo, com "Nas pulperias", cuja letra insiste naquela permanente obsessão do "Jacaré" pelo conflito entre a tradição e o moderno.

Esta chacarera (um "aire" de chacarera, se diria) é parte de um grupo de canções com estilos e motivações variadas. O chamamé "Sem-terra" é a única regravação deste disco; eu queria que ele tivesse visibilidade, pelo tema cada dia mais atual e pelas soluções poéticas que me agradam. Também dentro da vertente latino-americana, a milonga-toada "Flor do Anaí" usa a metáfora das flores para elogiar o cantor de fundamento, chamado fora daqui de "cantautor", aquele que canta opinando.

Do disco "Portuñol" gravado com diversos amigos em Montevideo, reeditamos aqui uma parceria com o poeta uruguaio Atílio "Macunaíma" da Cunha, onde reaparece a temática do mar, da partida, do encontro. Os versos iniciais "hombre libre, siempre, amarás al mar"são uma citação de Charles Baudelaire.

Tive grande alegria em contar com o arranjo de Cristóvão Bastos (como já fizera no disco de 1979) e a voz de Nelson Coelho de Castro no tema "Rainha dos Navegantes", onde meu carinho por Porto Alegre tenta retratar a festa popular afro-católica.

Braços abertos sobre a Guanabara...

Parece que a imagem dos papéis vadios tocados pelo vento me impressiona muito, quem saberá porque. Eles reaparecem em "Arco-íris da Lapa", ao lado de outros tocados sem-destino e esperança, os menores de rua. Esta bossa-nova é uma espécie de "cena do Centro" do Rio de Janeiro, começando pelos ambulantes de manhã no Largo da Carioca , os engarrafamentos debaixo de 40 graus, o fim-de-tarde no botequim, a madrugada na calçada do Bar Capela.

Em "Santa Tereza", a levada e o texto tentam capturar a atmosfera do bairro boêmio e descansado, com citações da geografia, dos amigos, quando do terraço se viam as mangueiras, a ponte, a baía e o Dedo-de-Deus ! Nela destaco também a estréia do meu filho Santiago em disco, e o arranjo de Cláudio Vera Cruz com seu violão/baixo e seu naipe de sopro "verbal-falsetal".

Desta temporada carioca é também "Brazo de guitarra", uma toada em parceria com Paulinho Tapajós que era um 2x4 em português, e que León Gieco verteu ao castelhano num tempo de zamba, em 3x4. Achei que ficou dez.

Ah, sim, e o arco-íris ? Bem, quem vinha da Lapa cruzando os Arcos, à sua esquerda via a parede cega de um prédio onde haviam pintado um lindo arco-íris sobre um celeste que se fundia com o céu verdadeiro por sobre as árvores do Passeio Público. Detalhe: o arco-íris era... reto, a 45 graus do horizonte. "Coza" linda, sangue-bom!"

As aves que aqui gorgeiam...

"Barca largada" é uma parceria com Paulinho do Pinho (Paulo Luiz Coutinho, Paulinho das Garrafas), que reencontrei em Buenos Aires em 1974. Sem sabê-lo, talvez tenha sido meu melhor professor de harmonia e do seu uso no violão. A letra fala da angústia, solidão e desesperança dos exilados brasileiros recém-chegados do Chile, "semi-seqüestrados" pelo regime argentino.

Da mesma fornada é "Lejano Chile", na qual procuro mostrar o amor, a gratidão e a esperança pelo Chile que acolheu-me (nos) com total solidariedade nos anos 70. Copia um hábito dos cantores revolucionários do Chile, ao enumerar com orgulho os ofícios dos trabalhadores e anunciar a "nova semente".

Num daqueles intermináveis jantares comandados por Vinicius de Morais, com Toquinho, Mutinho, Azeitona, o poeta desafiou Ferreira Gullar (também exilado em Buenos Aires) a escrever letra para música, algo "menos sério" do que costumava fazer. Na manhã seguinte, Ferreira apareceu com a letra de "Te procuro lá", que viria a ser a primeira música minha a repercutir na volta ao Brasil. Fizemos outras canções, como "O rei encantado" que gravo agora, cuja letra mostra o caminho torcido que vai dos problemas reais até sua mitificação (no caso, o sebastianismo).

Novos e bons exílios...

Certos temas recorrentes voltam com intensidade quando vou morar em São Paulo. A descoberta da natureza está em "Canta-passará", com seu linguajar catarinense/açoriano onde movimento melódico e compasso composto tentam imitar a alegria matinal do sanhaçú, da cambacica, do araquã, da carruíra dentro da mata.

Gosto muitíssimo da poesia de "Aventureiro", com sua sede de liberdade e aventura, com a mistura das vivências pessoais e políticas, ao lado de cadências melódicas originais. A paixão pelo futebol se junta ao lirismo da infância em "Maracanã", com metáforas opostas sobre melodia algo arcaica do baiano Vicente Barreto.

Coloquei neste disco algumas gravações domésticas, sem nada além de violão e voz. Acredito na criação pura, na "raça" como se diz nas peladas do Ararigbóia. Não será o badulaque que deixará uma canção fraca mais bonita; como dizia meu professor Francisco Giacobbe nas aulas de contraponto, "a mulher bonita se veste apenas com uma túnica!"

 
35 Anos de carreira de Raul Ellwanger
 

A segunda metade da década de 1960 conheceu um grande movimento musical na cidade de Porto Alegre, com 6 festivais de repercussão nacional (Arquitetura e TV Gaúcha), shows multitudinários em ginásios com participação de artistas consagrados (Elis Regina, Conjunto Norberto Baldauf), intensa empatia com o público e completa cobertura mediática.

O compositor Raul Ellwanger se destacou naquele grupo, compondo canções que sinalizavam o surgimento da futura Música Popular Gaúcha -MPG ("O Gaúcho", "Zé do Treze"," João Julião Fumaça"), obtendo colocações de ponta em festivais( 2* lugar no Festival Sul-Brasileiro de 1968), participando da organização da "Frente Gaúcha da MPB", gravando algumas músicas nos poucos discos de festivais ("Sim ou Não", "O Gaúcho").

Com o advento do Ato Institucional n° 5, todo esse movimento foi desmobilizado, indo Raul Ellwanger exilar-se no Chile e Argentina. Nos oito anos de exílio, seguiu tocando, estudando e compondo com novos parceiros, como Mutinho, Ferreira Gullar e Paulinho do Pinho.

De volta ao Brasil, a partir de 1979 recomeça uma verdadeira carreira profissional, gravando e relançando diversos discos em três países (Brasil, Argentina, EUA, num total de nove), sendo gravado por importantes intérpretes (Mercedes Sosa, Beth Carvalho, Lucia Helena, Flora Almeida, León Gieco), acentuando sua participação nos movimentos sindicais e cívicos (Diretas Já, greves, solidariedade internacional), organizando a Cooperativa dos Músicos de Porto Alegre, criando música para novelas da TV Bandeirantes, concorrendo em festivais da Rede Globo e dos municípios do Rio Grande do Sul (California da Canção, Musicanto, Vindima), representando nossa música em encontros em mais de 10 países.

Nesse espaço de tempo, que completa 35 anos em 2003, Raul Ellwanger criou uma obra ampla e variada, que em sua medida reflete as diversas quadras de sua vida dentro da cambiante situação brasileira e latino-americana: adolescência, exílio, latinidade, revolta, romance, descoberta, recomeço, reconhecimento. Tendo desde 1994 entrado em repouso sabático de 7 anos junto à natureza, a partir de 2001 retoma alguns trabalhos na área musical.

Enfocando esse percurso ora vitorioso ora sofrido, se descobre na obra de Raul diversos momentos e obras artísticos que foram deixados de lado, seja pela violência dos mudanças do exílio, seja pelo desinteresse das gravadoras comerciais, seja pela própria precocidade desorganizada do autor.

Sua obra é parte de uma trajetória cultural coletiva de músicos, poetas, jornalistas/radialistas e produtores atrevidos que consegue superar a absoluta submissão aos modelos musicais gerados no centro do país (samba-canção)e pode mesmo chegar a lançar o começo da futura discografia gaúcha (a partir do Selo Isaec) e de múltiplas e bem-sucedidas carreiras de individualidades e grupos locais.

Daí a importância do registro em disco desta trajetória de Raul Ellwanger, resgatando em especial canções do período inicial dos anos 60 e do exílio nos anos 70, algumas inclusive com ritmo e idioma estrangeiro, e também aquelas canções dos períodos posteriores no Brasil, dando a público muitos trabalhos da melhor qualidade que aguardam registro e difusão